terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Teologia Bíblica / Faculdade Presbiteriana Fatesul

   
      Neste primeiro semestre de 2013 iremos estudar a disciplina Teologia Bíblica na Faculdade Presbiteriana Fatesul, localizada no bairro Tarumã, Igreja Presbiteriana.
     É possível participar como aluno ouvinte e também aluno de somente uma ou mais disciplinas, na busca de conhecimento para mais perto de Deus estar e mais produtivo na sociedade atuar.
     As aulas iniciam dia 25 de fevereiro e será possível acessar o material de estudo neste blog. Bom estudo!
     Abraços, prof Ivan Ruppell Jr.


     TEOLOGIA BÍBLICA - AULA 1 - Material de apoio

     INTRODUÇÃO
     "Por "teologia bíblica", entendo aquele ramo da teologia cuja preocupação é estudar cada segmento das Escrituras individualmente, especialmente quanto ao seu lugar na história da revelação progressiva de Deus. A ênfase de tal estudo recai sobre a história e o segmento específico.
     Por "teologia sistemática", entendo aquele ramo da teologia que visa elaborar o todo e as partes da Escritura, demonstrando suas conexões lógicas (não apenas históricas), dando pleno conhecimento à história da doutrina, ao clima intelectual e às categorias e indagações contemporâneas, tendo sua base de autoridade final nas Escrituras, propriamente interpretadas. Teologia sistemática lida com a Bíblia como um produto pronto.
     Estas definições não evitam superposição: a teologia bíblica precisa ser sistemática, mesmo que focalize o lugar e o significado históricos de um segmento específico da Bíblia; e a teologia sistemática, se depender de exegese honesta, deve forçosamente depender de considerações históricas (...)
RESUMO DE ESTUDO: - Teologia Bíblica - estudar segmentos da Bíblia individualmente - acerca de seu lugar na história da revelação progressiva - ênfase: história e segmento específico.
Teologia Sistemática - organiza todos os livros da Bíblia, em suas conexões lógicas - expondo o conhecimento doutrinário - o conhecimento e entendimento intelectual do contexto histórico das doutrinas - debaixo da autoridade das Escrituras.
QUESTÃO AOS ALUNOS: "Estas definições não evitam superposição... - Qual o significado desta frase?
     Warfield oferece uma analogia que, a despeito de seus limites, vale a pena repetir:
     - O trabalho imediato da exegese pode ser comparado ao trabalho de um oficial de recrutamento: da massa de cidadãos, ele seleciona os homens que vão constituir o exército. A teologia bíblica organiza tais homens em companhias, regimentos e batalhões, dispostos em ordem de marcha e equipados para o serviço. -
     A teologia sistemática combina tais companhias e regimentos, formando um exército - um todo único e singular determinado por seu próprio princípio abrangente. Tal exército também é formado por homens, os mesmos recrutados pela exegese, mas em seu relacionamento devido aos outros homens de suas companhias e regimentos e batalhões. (...)
     (Unidade do Novo Testamento e Teologias bíblica e sistemática)
     (...) Por exemplo, se for argumentado que um autor ou livro é incoerente devido a alguma omissão, redação posterior, incorporação de fontes incompatíveis, ou qualquer coisa semelhante, é impossível desenvolver uma teologia bíblica daquele segmento das Escrituras (...) Semelhantemente, a possibilidade de se desenvolver uma teologia sistemática depende de determinar que nenhum dos livros do NT é incoerente (seja tal coerência demonstrada em categorias lógicas, históricas, funcionais ou quaisquer outras). Se houver uma incoerência intransponível, então a disciplina "teologia sistemática" pode permanecer, mas nenhuma teologia sistemática como produto final será possível (...)
     - Donald A Carson, Teologia bíblica ou Teologia sistemática, páginas 25 a 29 -
QUESTÃO AOS ALUNOS: Escreva um parágrafo acerca da coerência bíblica das teologias bíblica e sistemática e sua importância para a existência das citadas "teologias"?

     TEOLOGIA, o termo - AULA 2
     "A palavra "teologia" pode facilmente ser decomposta em duas palavras gregas: theos (Deus) e logos (palavra). Portanto, a "teologia" é discursar sobre Deus, mais ou menos  da mesma forma que a "biologia" é discursar sobre a vida (do grego: bios).
     Se existe um único Deus e se esse vem a ser o "Deus dos cristãos" (para empregar uma frase de Tertuliano, um escritor do século II), logo, daí decorre o fato de que a natureza e o escopo da teologia se encontram relativamente bem definidos: a teologia representa a reflexão a respeito do Deus a quem os cristãos louvam e adoram.
     Contudo, o cristianismo surgiu no contexto de um mundo politéista, em que a crença em muitos deuses era bastante comum. Parte da tarefa dos primeiros escritores cristãos parece ter sido distinguir o Deus dos cristãos dos outros deuses que havia no contexto religioso (...)
     Com o passar do tempo, o politeísmo veio a ser considerado como algo ultrapassado e um tanto primitivo. A suposição acerca da existência de um único Deus, em que este era considerado idêntico ao Deus dos cristãos, tornou-se tão difundida que, até o início da Idade Média na Europa, parecia algo patente, que dispensava provas ou explicações. Assim, Tomás de Aquino, ao desenvolver sua argumentação em prol da existência de Deus, não considerou necessário demonstrar que o deus, cuja existência ele provara, era o "Deus dos cristãos": afinal, que outro Deus havia? Provar a existência de Deus representava, por definição, provar a existência do Deus cristão.
     Dessa forma, a teologia era vista como a análise sistemática da natureza, dos propósitos e da ação de Deus. Em sua essência, encontrava-se a crença de que a teologia representava uma tentativa, ainda que inadequada, de falar sobre um ser divino, distinto dos seres humanos.
     Embora inicialmente o termo "teologia" significasse a "doutrina de Deus", o termo adquiriu sutilmente um novo sentido, nos séculos XII e XIII, à medida que a Universidade de Paris começou a se desenvolver. Era necessário encontrar uma designação para o estudo sistemático, de nível universitário, voltado à fé cristã.
     A expressão latina theologia, sob a influência de escritores parisienses como Pedro Abelardo e Gilberto de la Porree, passou a significar "a disciplina da ciência sagrada" que abrangia a totalidade da doutrina cristã, e não somente a doutrina de Deus.
     Um desdobramento posterior ocorreu mais recentemente. Até a época do Iluminismo, em parte como uma espécie de reação ao surgimento da sociologia e da antropologia, o foco da atenção havia se deslocado de tudo o que estivesse fora do alcance da investigação humana, como Deus, por exemplo, para voltar-se ao estudo do fenômeno da religião. Os "estudos religiosos" ou o "estudo das religiões" representam a área do conhecimento voltada à investigação de questões religiosas - como, por exemplo, as crenças ou as práticas religiosas do cristianismo ou do budismo.
     Com isso, ocorreu uma modificação no significado do conceito de teologia (...) Logo, embora a Teologia fosse certa vez tida como discurso sobre Deus, ela agora havia se tornado uma mera análise de crenças religiosas - mesmo que essas crenças não se referissem a deus algum, ou se referissem a diversos deuses, como no panteão hindu.
     Até mesmo a bem-intencionada definição de teologia do teólogo John Macquarrie, da Universidade de Oxford, é ligeiramente vulnerável nesse aspecto: "A teologia pode ser definida como o estudo que, por meio da participação e da reflexão a respeito de uma crença religiosa, busca expressar o conteúdo dessa fé por meio da linguagem mais clara e mais coerente possível."
     (...) "A teologia é a ciência da fé. É a explanação e a explicação consciente e metódica da revelação divina, recebida e compreendida pela fé." (Karl Rahner). (Alister E MCGrath - Teologia, sistemática, histórica e filosófica, páginas 175- 177)

     Este brevíssimo passeio histórico acompanhando o desenvolvimento do significado do termo "teologia", já nos prepara para o entendimento do significado da disciplina "Teologia Bíblica"; pois qualquer tema que venhamos a estudar tem  sua origem e orientação em meio aos pensamentos surgidos na história do estudo da revelação cristã. Isto é compreensível. Porém, nos cabe tanto recordar e ressaltar tal fato, quanto - importante, reconhecer quando e como na história do pensamento cristão o termo "teologia" se fez reconhecer pela expressão "teologia bíblica".
     Como explica Donald A Carson, "teologia bíblica" se entende enquanto "aquele ramo da teologia cuja preocupação é estudar cada segmento das Escrituras individualmente, especialmente quanto ao seu lugar na história da revelação progressiva de Deus." (Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática, p 26 e 27).
     Então, inicialmente, deve-se reconhecer na história do pensamento cristão quando é que o interesse pelo estudo do texto e contexto das Escrituras se expressou através do termo "Teologia"; a fim de aprofundar tal entendimento no objetivo de anotar o contexto histórico que gerou o conteúdo peculiar ao que veio ser considerado "teologia bíblica".

MATERIAL DE APOIO - Conceitos, Teologia Bíblica


“Teologia bíblica é aquele ramo da teologia exegetica que lida com o processo da autorrevelação de Deus registrada na Bíblia.
Na definição dada, o termo “revelação” é tido como um substantivo que indica ação. A teologia bíblica lida com a revelação como sendo atividade divina, não o produto final dessa atividade. Sua natureza e método de procedimento terão, naturalmente, de manter estreito contato e reproduzir, até onde possível, as características do trabalho divino em si. (...)

“O nome é muito abrangente, pois, à exceção da revelação geral, supõe-se que toda teologia esteja embasada na Bíblia. (...) O fato é que a teologia bíblica, tanto quanto a teologia sistemática, faz que o material passe por uma transformação. A única diferença está baseada no princípio no qual a transformação é conduzida. No caso da teologia bíblica, o princípio é histórico; no caso da teologia sistemática, o princípio é de natureza lógica. Ambos são necessários e não há nenhuma situação em que um se ache superior ao outro.

Método da Teologia Bíblica
“O método da teologia bíblica é, predominantemente, determinado pelo princípio da progressão histórica, daí a divisão do curso da revelação em certos períodos. Qualquer que seja a tendência moderna quanto a eliminar o princípio da periodicidade da ciência histórica, permanece como certo que Deus, no desdobramento da revelação, empregou esse princípio com regularidade. Disso segue-se que os períodos não deveriam ser determinados de maneira aleatória ou segundo preferências subjetivas; mas, estritamente, de acordo com as linhas de divisão delineadas pela própria revelação. A Bíblia está, como esteve, consciente do próprio organismo; ela sente, o que não podemos dizer sempre de nós mesmos, a própria anatomia. O princípio das sucessivas Berith-realizações (aliança ou pacto-realizações), como indicando a introdução de novos períodos, tem um papel importante nisto, e deveria ser cuidadosamente observado.”

A divisão da revelação especial redentora “berith” e “diatheke”
“Isso é o que na linguagem dogmática chamamos de “o pacto da graça”, enquanto que a revelação especial pré-redentora é comumente chamada de “o pacto de obras”. Deve-se tomar cuidado para não identificar o último com o “Antigo Testamento”. O Antigo Testamento pertence ao pós-queda. Ele compõe a primeira das duas divisões do pacto da graça. O Antigo Testamento é aquele período do pacto da graça que precede a vinda do Messias; o Novo Testamento compreende aquele período do pacto da graça que segue da sua aparição e sob o qual nós ainda vivemos.”

(Teologia Bíblica, Antigo e Novo Testamentos – Geerhardus Vos, páginas 16 a 38)



   "Teologia bíblica é aquele ramo da teologia exegetica que lida com o processo da autorevelação  de Deus registrada na Bíblia.
   Na definição dada, o termo "revelação" é tido como um substantivo que indica ação. A teologia bíblica lida com a revelação como sendo atividade divina, não o produto final dessa atividade. Sua natureza e método de procedimento terão, naturalmente, de manter estreito contato e reproduzir, até onde possível, as características do trabalho divino em si (...)

   (...) As várias coisas designadas em sucessão pelo nome de Teologia Bíblica
   O nome foi usado, primeiramente, para designar uma coleção de textos-prova empregados no estudo da teologia sistemática. Depois, foi acolhido pelos pietistas em seu protesto contra um método hiperescolástico no tratamento da dogmática. É claro que nenhum dos dois usos fez surgir uma nova disciplina teológica distinta. Isso não aconteceu até que um novo princípio de abordagem, que posicionava a questão fora da esfera das disciplinas já existentes, foi introduzido. O primeiro a fazer isso foi J. P. Gabler no seu tratado De justo discrimine theologiae biblicae et dogmaticae. Gabler percebeu, corretamente, que a diferença específica da teologia bíblica se encontra no seu princípio histórico de abordagem (...)

Princípios Orientadores
   a) o reconhecimento do caráter infalível da revelação como essencial a todo uso legitimamente teológico do termo. Isso é essencial ao teísmo. Se Deus é pessoal e consciente, então a inferência é inevitável de que em todo seu modo de autorevelação ele apresentará uma expressão impecável de

   b) a teologia bíblica deve, igualmente, reconhecer a objetividade da base da revelação. Isso significa que comunicações reais vieram de Deus ao homem ab extra (...) A crença na ocorrência conjunta da revelação objetiva e subjetiva não é uma posição estreita e antiquada; na verdade, ela é a única visão abrangente, uma vez que tem o desejo de levar em consideração todos os fatos. A ofensa com o termo "ditado" frequentemente procede de um menosprezo de Deus e uma hipervalorização do homem. Se Deus foi condescendente em nos dar uma revelação, compete a ele e não a nós determinar a priori que formas ela assumirá. O que devemos à dignidade de Deus é que haveremos de receber sua fala com pleno valor divino.
   c) a teologia bíblica está profundamente envolvida com a questão da inspiração (...) nosso conceito da disciplina considera o assunto do ponto de vista da revelação que procede de Deus. Portanto, o fator da inspiração precisa ser reconhecido como um dos elementos de considerável importância que conferem às coisas estudadas o caráter de "verdade" garantida a nós como tal pela autoridade de Deus... O conceito de inspiração parcial é uma invenção moderna, não tendo nenhum apoio no que a Bíblia ensina sobre a própria formação... Ainda mais, temos descoberto que a revelação não está, de maneira alguma, confinada a manifestações verbais isoladas, mas ela abrange fatos... Portanto, a não ser que a historicidade desses fatos seja garantida e que isso seja de uma maneira mais confiável do que o que é feito pela mera pesquisa histórica, os fatos, com o conteúdo do ensinamento, se tornarão sujeitos a um grau de incerteza, considerando o valor da revelação com totalmente duvidoso. A confiabilidade da exatidão das revelações depende totalmente da exatidão do ambiente histórico no qual elas aparecem.

(Teologia Bíblica, Antigo e Novo Testamentos, Geerhardus Vos, edit Cult Cristã, p 20 - 25)



   TEOLOGIA BÍBLICA - AULA 3 - Material de apoio

     - A evolução da teologia como disciplina acadêmica.
     Qual a origem histórica do termo "teologia" e como se tornou em currículo acadêmico?
     Foi no período patrístico que Clemente de Alexandria distinguiu "uma teologia" cristã da mitologia pagã e igualmente Eusébio de Cesareia fez uso do termo, ambos buscando apresentar uma visão "verdadeira" de Deus a partir exclusivamente do ensino cristão.
     A partir do século XII, a teologia tornou-se disciplina acadêmica na Europa Ocidental a partir do surgimento das universidades, pois quatro faculdades eram ensinadas: humanidades, medicina, direito e teologia. A partir do ensino básico das humanidades, os estudantes se desenvolveriam a partir da escolha de uma das três "faculdades superiores". Encontramos esta realidade no século XVI quando os reformadores Lutero e Calvino estudam "humanidades" na universidade antes de se dedicarem à teologia e direito, respectivamente. Este reconhecimento acadêmico da Teologia avançou na Europa Ocidental proporcionalmente ao surgimento de novas universidades no decorrer dos séculos.
     O conteúdo de estudo da disciplina teologia, a partir das escolas das catedrais e monastérios, referia-se mais a questões práticas da fé e espiritualidade. O estudo a partir das universidades gerou um maior interesse teórico da disciplina, como na Universidade de Paris, século XIII, em que teologia designava "a discussão sistemática das crenças cristãs em geral." A obra Summa theologiae, de Tomás de Aquino, século XIII, consolidou a palavra "teologia" como referente à disciplina teórica.
     A postura de Tomás de Aquino em afirmar a teologia como disciplina teórica provocou reações de Boaventura e Alexandre pelo esquecimento do estudo prático e também de Thomas à Kempis; que declaravam haver maior interesse na reflexão do que na obediência a partir dos estudos com ênfase teórica. Lutero e Calvino igualmente se preocuparam com as questões práticas da fé a partir do estudo teológico, sendo que Calvino fundou a Academia de Genebra no propósito de orientação prática ao ministério pastoral. Escritores protestantes posteriores desenvolveram mais a reflexão teórica do que o pensamento ministerial.
     O Iluminismo do século XVIII fez o meio acadêmico questionar o valor e propósito da disciplina "teologia" no estudo das universidades. A busca da verdade deveria ser objeto da filosofia, em uma pesquisa acadêmica sem base externa à reflexão; sendo que a teologia, porém, era baseada em "artigos de fé". Kant afirmou que disciplinas como teologia, medicina e direito deveriam ocupar-se somente de questões práticas, como ética e saúde.
     F D E Schleiermacher renovou o interesse da disciplina "teologia" a partir do propósito de bem instruir o clero da igreja. Schleiermacher desenvolveu a ideia de três áreas à teologia: teologia filosófica, histórica e prática, resultando em uma visão de que o estudo da disciplina seria de valor para a sociedade; perspectiva bem aceita na Berlim do século XIV mas, perspectiva progressivamente abandonada pelo secularismo ocidental.
     A exclusão da disciplina "teologia"do meio acadêmico fez-se realidade a partir do surgimento de universidades com princípios seculares de reflexão, ocorrendo a partir da Revolução Francesa em 1789 e avançando, por exemplo, em universidades da Austrália que surgiram a partir deste pressuposto intelectual secularizado.
     Atualmente, a disciplina "teologia" existe em meio ao valor de uma sociedade pluralista, como nos EUA; em que seu estudo acadêmico se desenvolver a partir do estudo das religiões, a fim de não gerar privilégio a um determinado credo e fé. Os Seminários tornaram-se o local privilegiado de estudo da teologia cristã.
     A partir da obra: Teologia, a fragmentação e unidade da educação teológica, de Edward Farley, 1983; a disciplina acadêmica "teologia" afastou-se da busca por um "conhecimento genuíno das coisas divinas". Há uma diversidade de disciplinas que necessariamente não apresentam coerência e unidade, se desenvolvendo de forma isolada. Ainda, o que surge atualmente é a ideia de uma "arquitetura da teologia", refletindo sobre a relação entre estudos bíblicos e teologia sistemática e entre esta e a teologia pastoral.
     RESUMO - Prof Ivan S Ruppell Jr - páginas 177 a 180, Teologia sistemática, histórica e filosófica, Alister E McGrath.


   TEOLOGIA BÍBLICA - AULA 4 - Material de Apoio

   Teologia Bíblica: conceitos e considerações
    "A melhor abordagem para o entendimento da natureza da teologia bíblica e o lugar pertencente a ela no círculo das disciplinas teológicas passa por uma definição de teologia em geral. De acordo com sua etimologia, teologia é a "ciência concernente a Deus"... Como um caso frequente, a definição de teologia pode ser examinada como a "ciência da religião". Se nessa definição "religião" deve ser entendida subjetivamente como significando a soma total dos fênomenos ou experiencias religiosas no homem... Se, entretanto, religião for entendida, objetivamente, como a religião que é normal e de obrigação para o homem porque é prescrita por Deus, então outra questão deve ser levantada: por que Deus exige precisamente essa religião e não outra? Portanto, em última instância, ao lidar com religião nos encontraremos lidando com Deus.
   Da definição de teologia como ciência concernente a Deus segue-se a necessidade de que isso se baseie em revelação. Ao lidar cientificamente com objetos impessoais, nós é que damos o primeiro passo... Mas com relação a um ser pessoal e espiritual a situação é diferente. Somente à medida que tal ser escolhe se expor é que podemos conhecê-lo... O princípio envolvido foi formulado por Paulo de maneira impressionante: "Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus" (1Coríntios 2.11). O conteúdo oculto da mente de Deus pode ser possuído mediante o desvendar dessa mente, feito pelo próprio Deus. Deus precisa vir até nós antes que possamos ir a ele. Mas Deus não é um ser espiritual de forma geral. Ele é um ser infinitamente exaltado acima da nossa maior concepção (...)
   Outra razão para a necessidade da revelação que preceda todo o entendimento de Deus advém do estado anormal em que o homem existe no pecado. O pecado transtornou a relação original entre Deus e o homem. Isso produziu uma separação em que anteriormente prevalecia uma comunhão perfeita. Em razão da natureza da situação, todos os passos tomados na direção de corrigir essa anormalidade partiram da soberania divina."

(Teologia Bíblica, Antigo e Novo Testamentos, Gerrhardus Vos, edit Cultura Cristã, p 13, 14)
   


   TEOLOGIA BÍBLICA - AULA 5 - Material de Apoio

  "Uma nova preocupação com o método. Reformadores como Martinho Lutero e João Calvino tiveram um interesse relativamente pequeno em relação ao método. Para eles, a teologia voltava-se, sobretudo, à explicação das Escrituras.
     Na verdade, As institutas, de João Calvino, podem ser consideradas como uma obra de "teologia bíblica", que reunia as idéias básicas das Escrituras com uma apresentação sistemática. Entretanto, nos escritos de Teodoro de Beza, o sucessor de João Calvino na direção da Academia de Genebra (uma organização que treinava pastores em toda a Europa), pode ser vista uma nova preocupação com as questões metodológicas, (...) A organização lógica do material e sua fundamentação em pressupostos assumiram uma importância extraordinária."
     (página 115)

     "Não deixa de ser interessante o fato de que Calvino na medida em que escrevia os seus comentários da Bíblia, ampliava a sua Instituição da Religião Cristã - "obra prima da teologia protestante" - como resultado do seu aprofundamento bíblico, tendo em vista também os novos questionamentos de seu tempo. Neste sentido a sua teologia foi uma obra apologética, como, na realidade, deve ser toda a teologia.
     Aliás, a sua teologia nada mais era do que um esforço por comentar as Escrituras, por isso sua obra pode ser corretamente chamada de uma "teologia bíblica", certamente escrita por um teólogo sistemático que tão bem sabia se valer dos recursos da exegese e da hermenêutica, dispondo tudo isso de forma erudita e devocional. Por isso a história dos Comentários Bíblicos de Calvino e das sucessivas edições das Institutas se confundem e se completam. A sua exegese era teologicamente orientada e a sua teologia estava amparada em uma sólida exegese bíblica."
     (Herminsten Maia Pereira da Costa - Raízes da Teologia Contemporânea - páginas 142 e 143)


     A Dignidade da Teologia Bíblica a partir da Teologia Sistemática

     "Uma vez aceita a coerência interna de cada segmento, é possível desenvolver uma teologia bíblica para cada segmento e ainda assim deixar de encontrar o consenso necessário a uma teologia sistemática. Se, contudo, uma teologia sistemática for possível, a própria teologia bíblica assume uma nova dignidade, pois uma consequência da teologia sistemática seria a certeza de que os segmentos constituintes são coerentes, desde que corretamente organizados na estrutura histórica da teologia bíblica.
     Se as definições e relacionamentos que esbocei permanecerem de pé, segue-se que a legitimidade de buscar uma teologia sistemática depende da unidade do NT. A ampla diversidade existente não pode, portanto, envolver contradição lógica ou histórica. (...)
     (Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática, Donald A Carson, p 29-30)



AULA 6 - TEOLOGIA BÍBLICA

     Uma teologia bíblica do Novo Testamento formalizou-se grandemente ao redor de reflexões, conflitos e encontros a partir do pensamento teológico protestante junto aos movimentos da Reforma, Pietismo e Iluminismo. Isto porque até meados do século 13 somente havia uma teologia dogmática, não bíblica, posto que se apoiava no propósito de bem ensinar as definições fundamentais do pensamento cristão. Estas declarações dogmáticas afirmavam o cânone essencial cristão a partir de reflexões apologéticas, sendo desenvolvido nos séculos primeiros e Idade Média enquanto exposição de doutrina eclesiástica "necessária" ao seu contexto; não enquanto exposição bíblica em sua completude.

     Especialmente na Idade Média esta exposição dogmática apoiou-se mais fortemente nas tradições eclesiásticas, pois o resguardo e testemunho da verdade cristã se fizeram reconhecer pela manutenção e proteção do pensamento cristão do cânone essencial. Enquanto os "reformadores" refletiram sobre o conteúdo do cânone dogmático eclesiástico com liberdade reflexiva desde o século 13, somente no século passado o pensamento cristão católico atuou de igual forma.

     "A Reforma não produziu a ciência bíblica protestante atual, mas deu-lhe a relevância objetiva." (pg 19). Lutero não criou uma ciência bíblica pura enquanto base de compreensão e exposição da verdade cristã, pois manteve e se baseou em tradições e símbolos de fé cristãos históricos. Porém, inverteu a perspectiva existente entre Escritura e tradição, transferindo para a Bíblia o veredito final sobre o texto verdadeiro e correto da Igreja.
     Lutero e a Reforma Protestante irão legar ao pensamento cristão a orientação básica de que a Escritura é o critério primeiro de compreensão e exposição da Verdade do Cristianismo. O princípio de interpretação orientador de tal proposta é "que a Escritura expressa o decisivo, de maneira clara, se for interpretada de acordo com a sua própria essência." (p 19) Isto ocorre quando a Escritura é interpretada pela Escritura e, quando a Escritura interpreta-se a partir de Cristo: "E nisso Cristo para ele não é uma sigla, mas o Cristo que conheceu na mensagem da justificação da carta aos Romanos e ao qual as comunidades da Reforma se confessavam magno consensu, nos Escritos Confessionais." (p 19)

     Mesmo refletindo a partir destes princípios, os reformadores primeiros e seus posteriores teólogos ortodoxos, não desenvolveram grandemente uma teologia bíblica; pois atuavam em busca de respostas concretas às indagações e necessidades de sua época. Posteriormente, os Pietistas conflitaram com a ortodoxia protestante rejeitando um nascente escolasticismo do protestantismo. Assim fizeram trazendo a Bíblia novamente ao centro da reflexão. Porém, permaneceram expondo mais uma dogmática bíblica (declarações objetivas e simplistas) do que buscando uma exposição da completude do texto bíblico.

     "Uma teologia bíblica surgiu apenas quando o princípio escriturístico da Reforma, na maioria das vezes sob modificação pietista, se chocou com o pensamento histórico do Iluminismo." (p 20) Foram padrões de interpretação iluministas que moveram o pensamento cristão a analisar os escritos bíblicos enquanto documentos históricos, de igual modo a documentos antigos outros. Mesmo que a interpretação histórica documental tenha se iniciado e desenvolvido à luz da filosofia dominante à época, o princípio de análise histórica documental gerou novo valor à função teológica.
     "... a Escritura não quer apenas transmitir uma alocução genérica de Deus, mas quer faze-lo numa determinada situação histórica. A Carta aos Romanos, p. ex., não é um tratado de caráter geral, mas foi escrita à comunidade de Roma numa determinada situação. É por isso que a pesquisa histórica da Escritura é exigida pela própria Escritura." (p 21)

     O princípio orientador para que uma ciência autônoma guie a interpretação bíblica está na utilização desta enquanto "desenvolvimento da pesquisa "meramente histórica" da Escritura." (p 21)

(Texto: Resumo prof Ivan / Teologia Bíblica do Novo Testamento, O Desenvolvimento da Pesquisa e a Problemática)
   


   



domingo, 25 de novembro de 2012

Se gritar pega ladrão... e a Graça de Jesus

   A antiga canção que entoava, "se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão, se gritar pega ladrão, ooôh, não fica um"; em muito pode nos ajudar a compreender a Graça de Deus que está em Jesus.
   Um olhar atento e verdadeiro ao anúncio do pecado conforme o sermão do monte de Jesus, que está no evangelho de Mateus capítulos 5 a 7, nos leva à verdade do tema da canção popular. Só nos resta mudar o refrão: "se gritar pega pecador, não fica um meu irmão; se gritar pecador... oooôhh...
   É verdaade, como diria a apresentadora da tv; e é mesmo. Pois, ao apresentar os pecados que nos tornam distantes de Deus, Jesus vai direto aos pontos, apresentando claramente os sentimentos e atitudes, situação de vida e valores que são a essência de quem somos no dia a dia. Somos pecadores!
   Logo no capítulo 5, verso 21 em diante, descobrimos que são ladrões, digo pecadores, os que ficam irados contra os irmãos e que os insultam em razão disso. Segue depois, que aqueles que olham para as mulheres com cobiça em seus corações, já adulteraram com elas, cometendo o pecado do sexto mandamento. Quanto ao divórcio, todo aquele que está divorciado, exceto em razão de traição sexual, em pecado de divórcio está. Aprendemos ainda, que todas as afirmações dúbias e complexas que fazemos no dia a dia, a fim de confundir as pessoas no engano de nossas atitudes e atos, escapando de assumir os maus pecadores que somos, também pecado são. Seja o nosso sim, sim e, o nosso não, que seja não. O que passar disso vem do Maligno, ensina Jesus. Não devemos resistir à situação de humilhação e dificuldade, mas permanecer junto ao que nos maltrata; quem sabe por mais uns 3 km. E o amor e a bondade que Deus tanto quer nos dar pra sentir perante as pessoas - pois só se sente amor perante o próximo, né; trata-se de um amor que, primeiramente, só não será pecado, mas sim virtude e vontade de Deus, se for para com os inimigos. Ai, ai, ai.
   Enfim, à luz dos ensinos de Jesus sobre quem somos e quais são nossos pecados; descobrimos que para toda a humanidade, se alguém gritar: "pega pecador...", não vai sobrar nenhum, meu "irmão". Seja a ira e o insulto, o adultério e o divórcio, as palavras dúbias e o engano, o orgulho e egoísmo, ou a bondade somente aos que nos fazem o bem, quando só amamos pra amor também receber. Todos estes atos, enfim, são pecados. E os praticantes, pecadores. Não há outro diagnóstico.
   Pecados nossos que fazem separação entre nós e Deus; e que são, certamente, sentimentos e atitudes constantes e até situações existenciais imutáveis de todos nós. Se a partir deles Deus gritar: pecadooôoor... Não fica um. Fui!
   Mas é aí que Deus envia Jesus - pra levar nossos pecados e nos oferecer o jeitão justo de Jesus viver junto do Altíssimo Deus. É a Graça de Deus aos homens, oferecida em Jesus, possibilitando que todos nós - os que cremos, ainda que constantemente pecadores, aproximemo-nos de Deus e ali bem perto fiquemos.
   É por isso que a primeira das bem-aventuranças é exatamente a pobreza de espírito. Reconhecer nossa miséria é o passo primeiro que nos permitirá receber as graças necessárias de Jesus para que sejamos, então, enriquecidos. Pois a Graça de Jesus é uma oferta para os desgraçados, miseráveis, pecadores, maus e falhos, ruins mesmo. Mas é Graça que somente se alcança quando se crê!
   E crer, no cristianismo, é, primeiro, se arrepender!
   O primeiro arrependimento é exatamente o tratamento mor do tema deste texto todo: o fato de que, somos todos, pecadores. Portanto, o primeiro e constante, contínuo e habitual, costumeiro e permanente arrependimento do pecador - é o arrependimento de ser "um rebelde em essência" diante de Deus.
   Não somos a favor, somos contra Deus. Assim nascemos e fomos concebidos. Arrependei-vos, portanto, da maneira como ora existem. Façam-se humildes de coração e pobres de espírito, a fim de que Deus os enriqueça em Jesus com virtudes e dádivas existenciais divinas.
   A primeira virtude é também o primeiro mandamento do cristão: Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos céus. Os arrependimentos subsequentes que irão gerar virtudes de vida, acompanham a perspectiva humilde humilhante da primeira: bem aventurados os que choram (ao pecar) e também os humildes; os que tem sede de justiça e os misericordiosos (ao próximo); os puros de coração e os pacificadores; e, especialmente, bem aventurados os perseguidos por causa do evangelho. É isto!
   Os sentimentos e atitudes do cristão que vai nascendo no corpo e vida de todos nós, humanos pecadores, estão aqui mui bem descritos por Jesus, a fim de que não exista dúvida acerca da necessidade de deixarmos de seguir a nós mesmos (e ao maligno); buscando, realmente, andar agora perto do Altíssimo e único Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.
   Conclusão: "somos" todos pecadores. Alguns pecados aparecem de vez em quando e outros são situações habituais e imutáveis de nossa vida. Mas, somos todos pecadores. Diante da santidade e perfeição da vida de Deus, não há como permanecer engano sobre nossa distinção existencial. A morte é o único destino dos que separados de Deus vivem. Portanto, não invente, nem tente, não vai dar  pra encontrar Deus de um jeito diferente.
   Mas, sempre é possível encontrar Deus, na Graça de Jesus. Aliás, o único caminho, verdade e vida.
   A Graça de Jesus é um movimento de Deus que nos alcança enquanto somos e permanecemos pecadores - com todos estes pecados aí encima descritos. Somos todos pecadores. Porém, a Graça de Jesus "supera" a abundância dos pecados e nos leva pra perto de Deus. Aliás, não somente perto, mas pra viver junto d´Ele, no Espírito Santo. Maravilha.
   Agora então, junto do Espírito; nós pecadores iremos vivenciar novos tempos, a fim de irmos nos transformando em busca de uma renovação existencial. Os pecados vão sendo rejeitados e apagados e o Espírito vai santificando-nos. Eis a salvação, dos cristãos. Aqueles que creem!
   Creem no que?
   Que são pecadores. Que estão distantes de Deus. Que precisam se arrepender do jeito como são e vivem. Que precisam buscar a Deus. Que precisam ficar perto de Deus. E que, então, conhecerão a Deus - quando viverem junto d´Ele; o que só ocorre quando vivem "como" Ele. Afinal!
   Eis o projeto da Graça. Agora, pois, assuma a Graça. Envolva-se com Jesus. Encontre Deus.
   Reflexão: quanto aos cristãos líderes que são mais parecidos com os versículos 21 a 48 do capítulo 5 de Mateus, e pouco parecidos são com os versículos 3 a 12 do mesmo Mateus - acautelai-vos deles! Vide Mateus 7. 15 - 23.
   Conclusão graciosa: Assuma sua pecaminosidade. Invoque a Graça de Jesus. Aproxime-se de Deus... e Deus se aproximará de você. Submeta-se ao Senhor, e até o Maligno fugirá de vós.
   E se alguém gritar: Pega! Pega pecador.
   Não fuja. Apresente-se - humildemente, em nome de Jesus! Pois não há outro. Não há outro nome mesmo em quem possamos ser salvos! Mas neste, somos! É a Graça de Deus que está em Jesus - mas só para os pecadores, hein.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Evangelismo Calvinista



A doutrina calvinista da Soberania de Deus se apresenta em nosso cotidiano, também através da Providência divina, que pela Graça comum capacita a humanidade a gerar uma cultura para beneficiar a existência humana na terra. O reconhecimento deste governo divino na história enquanto origem potencial de edificação da cultura humana, oportuniza a compreensão de um debate de "aproximação" esclarecedor à Verdade de Jesus a partir da idolatria de todos. 

“O Calvinismo reconhece Deus no mundo: (...) colocando-se perante a face de Deus, ele tem honrado não apenas o homem por causa de sua semelhança à imagem divina, mas também o mundo como uma criação divina. Ao mesmo tempo o Calvinismo tem dado proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera a salvação e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida do mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como criador.” (Abraham Kuyper, Calvinismo, editora cultura cristã, páginas 38, 39)

A afirmação de que a origem da criação e também do homem e sua cultura está em Deus, implica um olhar e relacionamento entre o cristão e o mundo terreno que é distinto da usual separação santo – maldito ou, religioso – secular que nos apresenta a perspectiva romana e evangélica comuns.

No livro, Calvino e sua influência no mundo ocidental (Cultura Cristã), explica Knudsen: "(...) para Calvino, diferentemente do que ocorria com outros líderes da Reforma, não existe dicotomia básica entre o Evangelho e o mundo, entre o Evangelho e a cultura...” (o Calvinismo como uma força cultural, artigo). Conclue, ainda, Kuyper: “(...) E para nossa relação com o mundo: o reconhecimento que no mundo inteiro a maldição é restringida pela graça, que a vida no mundo deve ser honrada em sua independência, e que devemos, em cada campo, descobrir os tesouros e desenvolver as potências ocultas por Deus na natureza e na vida humana.” (Calvinismo, p 40)

Pensando pra evangelizar, podemos refletir que o mundo dos homens não deve ser já declarado condenado pelo pecado que nele há; nem também a cultura que nele revela o agir humano deve ser afirmada inicialmente maldita. Isto porque nem o mundo  criado por Deus e nem a cultura gerada pelo homem, originaram do pecado.

Ao contrário, a natureza e a capacidade do homem de existir e gerar cultura tem origem na “mão” de Deus. A partir deste princípio é possível afirmar que até a busca do religioso e as construções humanas de relacionamento místico tem base original na Pessoa de Deus Pai. Pois a capacidade do homem de empreender artes e conhecimentos, ainda que em direções contrárias a Deus, não deixa de ser um dom comunitário divino à humanidade. Calvino: “Sabemos, sem nenhuma dúvida, que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade (...) Até a idolatria no serve de grande argumento em favor desta ideia. Porque sabemos quanto o homem tem se humilhado, contra si mesmo, e em seu detrimento tem prestado honra a outras criaturas (...) Logo, os próprios ímpios nos servem de exemplo de que algum conhecimento sobre Deus existe universalmente no coração dos homens.” (Institutas, vol 1 cap 1, o conhecimento de Deus, p 57 – 59)

Portanto, os princípios doutrinários calvinistas da Soberania de Deus – Providência divina – Graça Comum, direcionam a reflexão e o desenvolvimento pela Igreja de Jesus de um evangelismo natural e espontâneo; pois evangelismo que relaciona a cultura do homem àquele que a criou, Deus Pai. A espontaneidade e naturalidade estão no fato de que o “evangelismo” deverá integrar e aproximar o homem a Deus, servindo-se exatamente das obras da cultura humana. Pois, ainda que observadas distantes e contrárias a Ele, permanecem um potencial divino dado à existência humana na Terra.
Esta surpreendente integração da cultura humana, até idólatra, à verdade revelada que afirma ser Deus o senhor de toda existência humana, surge em análise da missão paulina na Atenas do primeiro século. (Atos 17) Neste texto acompanhamos o evangelista Lucas apresentar o relato dos diálogos que foram base do anúncio do evangelho de Jesus aos homens naquela localidade idólatra.
Neste propósito, Iniciamos meditação acerca do evangelismo em Atenas percebendo como o apóstolo, prontamente se dirige ao centro urbano repleto de deuses, para vê-los tanto em locais públicos e comerciais como ainda em santuários diversos. Logo depois está envolvido em bate papo diário com os supersticiosos e religiosos múltiplos, a fim de aprofundar-se nas novidades. Desenvolve, mais tarde, relacionamento com os que só desejam a felicidade sensual ou junto dos que acreditam na mãe natureza e num deus que se confunde com a criação.

Ainda junto a Paulo, aproveitamos pra conhecer os fiscais de ensino das novas religiões, e isto lá no centro de debates alternativos idólatras, o areópago. E lá mesmo observamos o anúncio que faz acerca de Deus Pai, citando-o a partir de existência conjunta no altar dos doze deuses, aproveitando pra direcionar ao Senhor de Israel os louvores a zeus, conforme cantavam os poetas gregos Epimênides e Arato.
Nesta breve análise, devemos reconhecer que a prática evangelística do Apóstolo Paulo não se permite governar a partir do princípio que pressupõe a condenação da cultura do homem, como pressuposto de valorização da cultura do evangelho. Distintamente, pode-se propor um diálogo que bem relaciona a cultura existente à sua origem e propósito. Tal princípio notamos na experiência paulina em Atenas, posto que o raciocínio do apóstolo apresenta o evangelho integrando-o à cultura humana, exatamente afirmando que a origem desta tanto está em Deus quanto debaixo de seu governo permanece; mesmo quando a enxergamos já mui corrompida.  

Finalmente, como o propósito do Evangelho de Jesus é restauração de tudo que há e salvação de todo que crê, é preciso concluir o processo relacional de aproximação entre cultura do homem e o propósito original de Deus.

Assim esclarece Knudsen (p 14) quando expõe o entendimento calvinista:  “ (...) ao mesmo tempo, ele (Calvino) não aceitava simplesmente, sem critica, as realizações do gênio humano. Sua atitude exigia que tais realizações fossem analisadas quanto às razões que as inspiravam, pois deviam estar sujeitas aos preceitos de Cristo.” Calvino: “Ora, se todos nós nascemos com este propósito de conhecer a Deus (...) ficará manifesto que os que não dirigem a essa meta todas as cogitações e ações de sua vida declinarão e serão abatidos da ordem da criação. Isso não foi ignorado nem pelos filósofos, pois outra coisa não entendeu Platão, tendo ele ensinado muitas vezes que o supremo bem da alma é a semelhança com Deus (..) Igualmente Grilo argumenta com grande sabedoria em Plutarco, afirmando que se a religião fosse eliminada da vida dos homens, eles não somente deixariam de ter qualquer excelência acima dos animais irracionais, mas também de muitas maneiras viriam a ser muito mais miseráveis.” (Institutas, p 62)

E nesta busca do propósito reto que somente a redenção divina promete e alcança, Paulo esclareceu aos estoicos que o Deus de Israel não era mãe natureza, mas sim, o Criador de tudo que existe. Também anunciou, tanto aos estoicos que concebiam um deus criador e ora ocioso, quanto aos epicureus que viam a vida e destino enquanto obra do acaso; que foi Deus Pai mesmo quem planejou e agora governa os tempos e lugares da existência da humanidade. Para que em tempo oportuno sejam por Jesus, encontrados, “bem que não está longe de cada um de nós”, diz Paulo.

E conforme a pastoral tradução bíblica de Eugene Peterson: “o desconhecido é agora conhecido e está pedindo uma mudança radical de vida. Ele estabeleceu um dia em que toda a raça humana será julgada, e tudo será acertado. Também já indicou o juiz, confirmando-o diante de todos quando o ressuscitou dos mortos.” (Atos 17.31)

Enfim, o estudo do evangelismo ministrado por Paulo e o conhecimento das calvinistas doutrinas apresentadas, indicam-nos um princípio de anúncio do evangelho que precisa se unir aos outros, também bíblicos que já conhecemos.

A postura do apóstolo Paulo ao anunciar o evangelho integrando-o à cultura humana sob os auspícios do agir Soberano do Deus Criador, propõe uma palavra de redenção pela aproximação ao invés de palavra de condenação pelo desprezo.

     É preciso reconhecer que sentimentos e valores, atos e conhecimentos do homem, sua cultura neste mundo - mesmo que ora contrários a Deus, também d´Ele surgiram enquanto possibilidade e potencia. Esta verdade acerca de toda vida que há na terra é fundamento, tanto de absoluta humildade a todos os homens, quanto de um evangelismo mais espontâneo e natural; pois o anúncio da redenção irá indicar prontamente um retorno do que ora somos ao que originalmente éramos: filhos de Deus Pai!
Foi este o evangelismo de Deus Pai enviando Jesus ao planeta dos homens e igualmente o evangelismo do apóstolo Paulo visitando Atenas da Grécia. E até João Calvino percebeu, tanto que a complexa, mas didática doutrina da Soberania de Deus ele concebeu; orientando-nos a partir do conhecimento da providência divina e graça comum dada aos homens, como tudo que há e existe está mais perto do Senhor do Universo do que ora cremos.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O Dia de Ação de Graças


O Dia mundial de Ação de Graças é o feriado mais importante dos Estados Unidos da América, abrindo os festejos do Natal através de reuniões familiares com o propósito de celebrar as conquistas de mais um ano de existência da nação.
A primeira celebração de gratidão a Deus pela providência divina ocorreu em 1621, na cidade de Plymouth, Massachusetts, em festa da colheita do outono que uniu os colonos ingleses aos índios da tribo Wampanoag – os quais, felizes pelo convite, levaram alimentos em gratidão aos peregrinos. 
Os migrantes ingleses chegaram à América no ano de 1620, em número aproximado de 110 colonos, sendo que pouco mais da metade sobreviveu ao primeiro inverno rigoroso. Após as dificuldades da colheita do primeiro ano os peregrinos protestantes conquistaram boa safra no ano seguinte, verão de 1621, contando com a ajuda agrícola dos indígenas locais. A liderança da comunidade orientou assim uma celebração em gratidão a Deus, originando a partir daí o Dia de Ação de Graças – Thanksgiving Day. Celebração que se repetiu nos anos seguintes, tornando-se igualmente comum em outras colônias da região. O presidente George Washington declarou o dia 26 de novembro como Dia nacional de Ação de Graças e, em 1863, o presidente Lincoln ordenou a festa para a última quinta-f do mês; até que o Congresso dos Estados Unidos da América determinou a criação do feriado nacional a ser comemorado sempre na quarta quinta-f do mês de novembro.
É preciso recordar que festivais de colheita eram tradicionais no mundo conhecido à época e desde sempre os cidadãos do leste europeu festejavam nestes moldes suas datas especiais. Os cidadãos do Reino Unido celebravam boas colheitas de trigo, cancelando a festa em tempos ruins. Em meio a este contexto, os protestantes ingleses desenvolveram o costume de organizar datas específicas de gratidão a Deus por bênçãos recebidas, normalmente em tempos de crise e logo ao chegar de dias melhores. Inicialmente celebrações comunitárias, estas festividades do outono na Inglaterra traziam consigo o hábito da entrega de cestas cheias de alimentos a fim de simbolizar a fartura das colheitas recebidas.
Hoje em dia os norte-americanos aproveitam o feriado para reunir familiares e amigos, a fim de celebrar com pratos típicos mais um ano de conquistas, a partir, principalmente da Ceia do peru; sendo que no ano de 2001, quase 90 milhões foram ceados nos USA.
Dentro deste contexto histórico, é comum aos norte-americanos festejar o Dia de Ação de Graças recordando em orações os peregrinos que iniciaram a celebração na América. Trata-se do grupo de protestantes conservadores calvinistas ingleses – os puritanos, em boa parte agricultores que deixaram a Europa devido à cultura considerada mui deturpada; indo em busca de criar na América uma sociedade pautada somente em preceitos das Escrituras.
Esta celebração de origem cristã a partir de solo norte-americano é festejada em todo o mundo como oportunidade internacional de gratidão, sendo também o momento de voltar-se a Deus enquanto doador da vida e ao próximo pela amizade e fraternidade. Este internacional Dia de Ação de Graças foi instituído em nosso país pelo presidente Gaspar Dutra no ano de 1949, por sugestão do embaixador Joaquim Nabuco; tornando-se uma data festiva especialmente nas igrejas e universidades confessionais, além de famílias de origem norte-americana.
Os cristãos, protestantes ou não, precisam melhor conhecer esta festa e mais apropriadamente festeja-la, posto que o antigo Israel de Deus tornou-se conhecido pelo entusiasmo e temor com que celebrava perante o Senhor as bênçãos constantemente recebidas da mão divina. O anúncio ousado e público afirmando o cuidado constante de Deus sobre a vida dos homens na Terra cabe mais aos cristãos do que a outrem.  
Bem sabemos que o Deus Pai soberano governa pela sua Providência as nossas vidas, ofertando-nos tudo que precisamos e ainda, no tempo devido e necessário: “Portanto, sempre que falamos de Deus como o Criador do céu e da terra, lembremo-nos que Ele retém o domínio de todas as obras das Suas mãos, e que nós somos Seus filhos, os quais Ele se empenhou em nutrir, sustentar e proteger.” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã)
A partir desta realidade do Governo bondoso do Senhor sobre nós na história, voltamo-nos a Ele com gratidão e louvores em celebrações e festejos e, neste propósito, o Dia de Ação de Graças é oportunidade ímpar – Bendito seja o nome do Senhor!
Essencialmente, uma reflexão fundamental aos cristãos assim que buscam Ações de Graças apropriadas a Deus, surge da percepção que o maior ato de gratidão esta exatamente em uma integral consagração como servos do Senhor Jesus. Precisa ser uma entrega em espírito e em verdade – com o lado de dentro. É preciso amar a Deus de todo coração – sentimento; de toda alma – vontades e interesse e, de todo entendimento – nosso pensar e imaginar. Tudo que somos, enfim, precisa “ser” de Deus.
Eis a perfeita atitude de “ação de graças” dos homens para com Deus. Nada mais e também, nada menos do que a convocação paulina em Romanos 12.1: “Ofereçam-se a Deus como um sacrifício vivo...”. O motivo para que todos nos tornemos propriedade de Deus é a inigualável misericórdia do Senhor do Universo, que fez recair a nossa morte sobre Cristo a fim de que pudéssemos receber d´Ele a Vida Eterna. Aleluia!
Eis o verdadeiro culto racional e inteligente, pois ao assumir o senhorio de Jesus sobre tudo que fazemos de segunda a segunda, podemos viver integralmente a vida completa que o Senhor nos provê - dádiva mor aos que creem. E assim nascem os cristãos, pois tornam-se seres de Deus em amor, pois a partir do reconhecimento grato das bondades recebidas. 
Em tempo: consagre-se mais a Deus. Viva sua vida semanal perante Ele. Seja, enfim, um bom cristão de Deus Pai – o verdadeiro doador de toda a Vida...  atual e eterna. E feliz Dia de Ação de Graças! 


Fontes:
thanksgivinday – o dia de ação de graças. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Ser Igreja - O Maior no Reino dos Céus

     O capítulo 18 de Mateus ensina uma só mensagem. Aliás, prestando boa atenção aos evangelhos, parece que somente uma leitura integral dos mesmos trará bom entendimento. Mas, não vamos complicar. Então, meditemos: o maior neste reinado de Jesus que avança pela terra como fermento a dominar o bolo dentro do forno, precisa antes, entrar no Reino. E aí, pra isto ocorrer, precisa agir como uma criança. Dependente e crente, confiante e entregue, grata e satisfeita pelo convite pra tomar sorvete numa tarde quente de verão.

     E logo após entrar, poderá, enfim, buscar seu lugar entre os maiorais.  Os maiorais são os que não somente agem como crianças diante do Pai, mas, tornam-se humildes como servos. Humildade como aquela de Jesus, que mesmo sendo Deus, não levou em conta este fato e fez-se homem e, depois, escravo dos homens. Eis a diferença dos reinos e a diferença dos maiorais dos reinos. Pois os maiorais de Jesus não são como os maiorais dos reinos sem Jesus, sejam impérios romanos ou norte-americanos. Não mesmo! Pois não irão dominar sobre seus pequenos, nem deles dispor sem atentar para o que fazem e acontecem encima deles. Enfim, os maiorais no governo dos humanos de Jesus são os que se dispõe ao sacrifício pessoal, a fim de que jamais atrapalhem ou desorientem os pequeninos do Reino. Cuidam para não ferir a consciência deles, como bem lhes avisou o mestre.

     Ai daqueles por quem entram os pecados na igreja - e pior, afastando e mal acostumando os pequeninos aprendizes de Jesus. Cuidado, não desprezem nenhuma das crianças de Deus. Ao contrário, vão em busca delas, onde e como estiverem. Por isso mesmo, após entrar no império do seu amor e também buscar um lugar entre seus maiorais, os seguidores de Jesus precisam, agora, treinar e amadurecer... na humildade - o valor maior dos maiorais daquele que é o maior. São chamados a buscar os afastados e perdidos, os desenganados e desprezados, os julgados e condenados - especialmente aqueles sobre quem a justiça foi feita com correção e verdade. É sério. Isto porque, os maiorais do reino de Jesus precisam, vez ou outra, servir-se da humildade dos espirituais pra avisar aos pecadores os seus pecados. Devem procura-los e avisar do pecado. E aí, se ouvidos forem, podem ganhar o irmão para a intensidade do Reino da verdade.

     Mas, se não forem ouvidos, então os maiorais se reúnem em dois ou três e afirmam ao pecador rebelde e desobediente que, sim, ele é considerado um pecador rebelde e desobediente diante de Deus. Afaste-se  de Deus e dos seus, avisam-no os maiorias. E o próprio Jesus confirmará a sentença, pois estará no meio dos dois ou três maiorais que cuidam - bem, do Reino. Finalizando o processo e a caminhada, os maiorais humildes do reino irão deixar as noventa e nove amizades da igreja lá na igreja, e vão atrás daqueles que, provavelmente foram afastados justamente - mas agora, são chamados a voltar. Também justamente - pela Justiça de Jesus. Isto depois de comerem o pão que o outro amassou. Mas agora, lhes será oportunizado pelos maiorais do Reino, o Pão do céu. Graça!

     Os maiorais fazem assim porque entraram no reino como crianças, aprendendo tudo de Jesus e agindo como Ele em tudo; e, também, porque são humildes o bastante pra abandonar qualquer orgulho ou honra pessoal perante os pecados e pecadores deste mundo. Principalmente até, perante os pecadores que contra eles próprios pecaram. Perdoem-nos, logo, diz o Senhor. Pois assim faz o Pai de vocês que está nos céus. O Deus Pai vive pra perdoar e se aproxima de tudo e de todos, ofertando perdão, pra ver se consegue ao menos ganhar alguns para o Reino do seu Filho. Pois o Deus Pai cuida do Reino - e as pessoas é que são o Reino! Jesus também cuida. Os maiorais de Jesus também cuidam. Eis o ensino único de Mateus 18: Cuidem do Reino de Jesus - suas pessoas!

   

sábado, 20 de outubro de 2012

Reforma Protestante - Doutrinas comuns

          No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou as teses iniciais do que se tornaria historicamente o movimento cristão da Reforma Protestante. Junto de Lutero, igualmente Melanchton, Zuínglio, Ecolampádio, Bucer e Calvino desenvolveram as doutrinas que se tornariam o fundamento teológico do retorno do Cristianismo à Bíblia e a Jesus, o Cristo. Foi um momento maravilhoso da História!

          Desde o tema mor da Reforma - a Justificação pela Fé em Jesus para a Salvação dos crentes, os teólogos do movimento buscaram ensinar a verdade e propósito de Deus Pai para os "novos" cristãos e igrejas, no interesse de solidificar a redescoberta da Fé Cristã e igualmente sua vivência e anúncio ao mundo.

          Desde o tema da Justificação pela fé e o critério desta - a Bíblia, desenvolvendo a Oração e ainda a Pessoa de Deus: Amoroso, Trino, Santo, Onipotente, Providente e Vitorioso, meditando também acerca da Igreja de Jesus e dos Meios da Graça; os teólogos da Reforma não deixaram de anunciar o pensamento de Deus para qualquer tema ou questão que diante de seus olhos se punha. Ensinaram ao mundo tudo que Deus revela acerca de tudo que os homens vivem, e cobravam-se o desafio constante de manterem-se fiéis ao ensino inspirado das Escrituras. Ainda que certas divergências de pensamento os acompanham-se.

          O tema da autoridade da Igreja, por exemplo, obtinha tanto a visão de Lutero de existir em mãos dos chefes da igreja; quanto, também, recebia de Calvino e Bucer a perspectiva do sacerdócio universal que gera líderes democraticamente instalados. Trata-se da autoridade administrativa da Igreja, e, especificamente, uma autoridade limitada. Pois enquanto esta autoridade administrativa eclesial é uma liderança representativa dos desígnios de Deus, seja pelas mãos de teólogos, chefes de Estado ou crentes comuns, jamais foi esta autoridade pensada absolutamente - a Autoridade final e maior, única, deve ser a Palavra de Deus. Ponto.

          Especialmente, próximos de celebrar os 500 (quinhentos) anos da Reforma, cabe lembrar e anunciar os valores teológicos comuns aos Reformadores, posto que evidenciam a base de uma Igreja evangélica que tanto agrada a Deus quanto igualmente se faz eficaz no evangelismo de Jesus. Para os Reformadores, a Igreja verdadeira é a Igreja Invisível de Jesus, que se infla pelo mundo a partir do testemunho da Palavra - jamais é a igreja limitada fisicamente por nossa visível administração denominacional.

          Esta Igreja verdadeira é aquela gerada pelo Espírito, que confirma no interior das almas humanas o testemunho salvador do evangelho de Jesus. Consequente a estes fundamentos, os Reformadores uniram o testemunho dos crentes e o Ensino da Bíblia - Ministério da Palavra, a fim de preservar a Fé e resguardar real unidade ao Corpo de Cristo, a Igreja. Finalizando esta perspectiva una, temos o Amor e o Serviço ao próximo enquanto valor cristão básico, que deve gerar em todo cristão o desafio de uma atuação genérica em todo o mundo - a partir do ensino de Deus. Seja na família ou trabalho, cidadania social ou política, e ainda na comunidade religiosa, a Igreja e os cristãos existem para servir.

          Que estes excelentes valores bíblicos de unidade e serviço da verdadeira Igreja de Cristo, que um dia se tornaram valor comum aos excepcionais teólogos da Reforma, tornem-se também aos cristãos deste século iniciante, valores honrados de uma igual vivência evangélica. Que assim façamos, tanto em respeito aos Reformadores, mas, especialmente, em adoração e serviço a Deus - Pai, Filho e Espírito Santo. Feliz celebração da Reforma Protestante neste 31 de Outubro.


(fonte: Strohl, Henri - Pensamento da Reforma, Aste)



       

domingo, 7 de outubro de 2012

História e Eclesiologia - Reformar é necessário!


                Outubro é o mês da Reforma Protestante. Todos os cristãos evangélicos e suas denominações encontram origens ou influências fundamentais de sua organização neste movimento do Cristianismo. No dia 31 de outubro de 1517 o monge católico Martinho Lutero apresentou à aldeia alemã de Wittenberg suas noventa e cinco (95) teses, contrárias às indulgências que a Igreja Católica ministrava, e vendia, prometendo perdão de pecados e terrenos no Céu. A Igreja Católica Romana não aceitou as considerações do teólogo e houve necessidade do surgimento de nova igreja que, na Alemanha, assumiu-se como igreja Luterana.
                Na vizinha Suiça e a partir da liderança de Úlrico Zuínglio moveu-se a partir da cidade de Zurique o desenvolvimento do que ficou conhecido como Segunda Reforma, cujo propósito avançou os ideais inicias luteranos de uma reforma parcial para o princípio que determinava a reforma completa da Igreja cristã. Os grupos que iriam se denominar de reformados somente iriam assumir práticas e ensinos que a Bíblia objetivamente determinasse enquanto valor e doutrina cristãos.
                João Calvino revelou-se o líder e teólogo profundo e amplo que a nova Igreja requeria a fim de que suas fundações teológicas propiciassem base e rumo aos novos tempos que o horizonte de Deus governava à Igreja de Cristo na terra. A partir de 1532 e até sua morte em 1564, o teólogo mor da Reforma Protestante escreveu as Institutas da Fé Cristã e promoveu na cidade de Genebra uma experiência cristã na sociedade poucas vezes experimentada. Organizou também a Universidade de Genebra que se tornou em celeiro de líderes, a partir da formação teológica ministrada aos cristãos do novo movimento que de toda Europa buscavam nos pensamentos de Calvino essência e vivência à edificação da nascente Igreja Reformada.
                A Igreja Protestante em seu movimento reformado avançou pela França e Alemanha, leste europeu e Ilhas Britânicas. A chegada da igreja reformada ao Reino Unido fez nascer a Igreja Presbiteriana, exatamente quando os reformados escoceses promoveram uma administração da igreja cuja liderança faz-se de representantes das congregações, os presbíteros, daí surgindo o nome igreja presbiteriana. John Knox tornou-se o líder reformado desta presbiteriana organização eclesial, exatamente após concluir estudos teológicos em Genebra junto a João Calvino.  Igualmente na Inglaterra, o movimento dos puritanos desenvolvia princípios reformados em meio a situações históricas de grande tensão junto à Coroa inglesa.
                A Igreja Protestante, de pensamento reformado, com organização eclesial presbiteriana tomará forma nos Estados Unidos da América através dos escoceses-irlandeses, que adentrarão localidades diversas, e, no que historicamente importa à Igreja Presbiteriana do Brasil, na cidade da Pensylvania.  Isto porque dela virá, em 1859 o Reverendo Ashbel Green Simonton, missionário fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, após envio ao nosso país pela Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos. Eis parte essencial da história da Reforma Protestante e igualmente da inserção da Igreja Presbiteriana na mesma. 
                Hoje, próximos de celebrar 500 anos da Reforma Protestante (ano 2017), todas as igrejas evangélicas e especialmente a calvinista Igreja Presbiteriana do Brasil, precisam recordar e semear o desejo e princípio inspirador das lideranças reformadas de cinco (5) séculos atrás. Trata-se do nobre valor observado nos crentes de Beréia, livro de Atos capítulo dezessete (17), que a cada ensino ministrado pelo Apóstolo Paulo, examinavam “as Escrituras para ver se tudo era assim mesmo”. Valor que às igrejas reconhecidas ao movimento da Reforma se fez lema eclesial através da purificadora frase: “Uma igreja reformada sempre se reformando”. Ou, como dizia João Calvino, reformar é necessário. E sempre e fundamentalmente, a partir da Palavra única de Deus, Bíblia. 
                Neste sentido, voltamo-nos à Bíblia e encontramos a celebrada Igreja de Colossos, a fim de assumi-la como projeto de Igreja Cristã digna de nos conduzir no lema "igreja reformada sempre se reformando". Nesta inspirada carta devemos nos examinar, como bereanos nobres que sempre nos reformando seremos, a fim de perceber a razão da gratidão de Paulo a Deus pela vivência comunitária dos colossenses. Tal análise nos dará bom padrão divino eclesial e irá nos prover virtudes e vivências coerentes à vontade de Deus Pai e ao senhorio do Jesus para a edificação da Noiva do Senhor. 
                No capítulo primeiro aprende-se que os cristãos precisam crescer na Fé em Jesus e no Amor pelos irmãos da Igreja, e isto em razão da esperança a eles reservada nos céus. Esperança que é promessa do Evangelho, este que, muito fruto dá quando as pessoas ouvem e compreendem a verdadeira Graça de Deus nele ministrada.
No capítulo dois (2) descobrimos que é preciso bem conhecer o mistério de Deus, Cristo, a fim de conseguir experimentar esta nova maneira de existir hoje que tem Jesus por modelo e padrão, pois nele habita toda a plenitude de Deus destinada à humanidade. Ele é o Cabeça pensante e a liderança principal da Igreja de Deus Pai. 
 O capítulo terceiro inicia pelo desafio aos cristãos para que vivam em seu cotidiano pela fé. Fé que os convoca a viver não por seus particulares padrões, mas sim, buscando o estilo de vida dos céus que vimos em Cristo, com sentimentos diversos pra vivenciarmos uns aos outros: compaixão e bondade, humildade, mansidão e paciência; e o desejo de suportar uns aos outros perdoando continuamente assim como nos faz Jesus.
No quarto e último capítulo, Paulo descreve incrível experiência e especial ferramenta da fé cristã. Oração e mais oração, diz ele. Devemos orar por oportunidades pra falar de Cristo e orar para que os cristãos aqui e em missão distante tenham liberdade de anunciar o Evangelho. E que sejamos, enfim e sempre, sábios em declarar uma palavra agradável e temperada, a fim de levar o sabor do evangelho onde estivermos.
Portanto, cristãos protestantes evangélicos, eis um programa eclesial à igreja que deve ser por padrão analítico de nossa vivência enquanto Igreja Reformada - sempre se reformando, neste início do século 21. As experiências de Fé e Amor que são a razão de gratidão a Deus pelo líder Saulo precisam, enquanto observação da vida congregacional dos colossenses, tornar-se igualmente o nosso fim e meio – alvo e vivência, enquanto existência denominacional organizada como Corpo de Cristo hoje. Não se pode desprezar o valor nobre dos cristãos de Beréia ou o lema mor dos Protestantes de sempre, deixando assim de avaliar à luz da Bíblia o que somos e esperamos enquanto Igreja Cristã nesta época ímpar do Cristianismo. O resultado e risco é tanto a experiência de desaparecer como a igreja cristã da Europa ou muito enfraquecer igualmente ao cristianismo norte-americano atual.
Finalizando, enquanto os quinhentos (500) anos da Reforma Protestante se avizinham, surge igualmente no horizonte a força de valores convencionais religiosos se consolidarem como regra de fé e prática – assim como os ensinos e práticas que desorientaram o Cristianismo europeu e estado-unidense. Porém, a solução está próxima e perto. Os cristãos de Beréia e também os líderes da Reforma apontam-na decisivamente: a Palavra de Deus precisa ser o Programa e Projeto das verdadeiras Igrejas de Jesus Cristo! E isto, de segunda-f à segunda-feira. Não há razão para reuniões e atividades, ensinos e práticas, que não aqueles que produzam no meio do Corpo de Cristo somente as virtudes essenciais da Igreja de Jesus. Que Igreja é esta? Quais suas atividades semanais e dominicais? Ao tema iremos, pois. Paz de Cristo.

Fontes de pesquisa:
 (site da IPB - história da Igreja Presbiteriana, texto do historiador, Rev. Alderi Souza de Matos)
(site – berearepreciso.blogspot.com )